segunda-feira, 3 de novembro de 2008

UMA PARTE DE MIM...


Pois bem, é necessário começar a falar... são tantas coisas, tantas alegrias e também tantas incertezas, momentos inesquecíveis, momentos de não saber o que fazer ou o que escolher, momentos...Então, nada melhor que dar início à exposição de parte de minha vida, ou melhor, de parte de mim.
Poder partilhar um pouco de minha experiência referente à Educação de Surdos requer inicialmente deixar claro que, somente a partir de rupturas, descontruções e da abertura para a problematização acerca da diferença é que pude a passos incertos iniciar esta caminhada. Nasci numa cidade do interior do rio Grande do Sul, chamada Santo Cristo. Nesta cidade vivi até meus 14 anos, lá não tive nenhum contato com pessoas surdas, e sim, com pessoas com alguma deficiência mental, paralisias, e/ou pessoas que apresentam algum comprometimento mental. Assim, durante muito tempo de minha vida, entendia que as pessoas que apresentavam alguma característica física, de comunicação, de compreensão ou qualquer outra marca diferente, eram pessoas deficientes.
Perambulei durante alguns anos conhecendo cidades do Rio Grande do Sul e também do Paraná, isso decorreu principalmente em função das mudanças realizadas pela minha família e também pelos meus estudos. No entanto, em 2003 passei no curso de graduação em Educação Especial – Deficientes da Audiocomunicação em Santa Maria. Logo no início do semestre participei de projetos de pesquisa que problematizavam a relação família e criança com necessidades especiais. Também tive a alegria de ter como colega de curso um sujeito surdo.
Durante a graduação experenciamos muitas discussões, trocas, enfrentamentos, medos, dúvidas e vivências na Educação de Surdos. A cada semestre pude me identificar mais com a escolha que havia realizado inicialmente de forma aleatória. Fui timidamente mantendo contato com a comunidade surda de Santa Maria, realizando observações na escola de surdos e discutindo alguns pontos de vista com meu colega.
No segundo semestre de 2006 realizei meu estágio curricular na Escola Especial para Surdos Frei Pacífico, da cidade de Porto Alegre. Esse foi o começo de uma caminhada que venho trilhando como professora de surdos. Sinto-me em muitos momentos como que estando em frente a uma encruzilhada, ou então, num caminho obscuro, que é percorrido passo a passo no enfrentamento dos obstáculos impostos pela sociedade majoritariamente ouvinte. Entretanto, é no espaço da Educação de Surdos que pude vivenciar conhecimentos antes nunca sentidos, conviver e aprender com os surdos é para mim a essência das minhas ações neste momento.
Sinto-me realizada na minha escolha, gosto muito de trabalhar com crianças, pois elas não se cansam de questionar, bem como, não aceitam respostas efêmeras. São os sujeitos com os quais mantenho contato que me fazem colocar sob suspeita a minha prática e os discursos que cercam os surdos. As crianças surdas são pesquisadores sedentos de questões, que apresentam uma caminhada possível na conquista de uma sociedade que respeite a diferença.
Deixo claro, que minha experiência é, de certa forma, breve, mas ao mesmo tempo, uma experiência indescritível na minha construção de vida. Compartilho com os surdos o sonho de trocar experiências, o sonho de buscar uma educação efetiva, ampla e concreta e a felicidade de estar com eles no amanhecer de todos os dias...

2 comentários:

Ana Cláudia disse...

Graci querida, não sou ninguém para dar pitaco na história de vida de ninguém, mas vou me atraver a isso. Lembro exatamente do primeiro dia que te vi, na entrada dos alunos, lembra? Confesso que senti um pouco de ciúmes em entregar a outra pessoa a minha turma. Sinto sempre isso no início dos anos letivos, acho que os alunos são sempre meus! Bem, fiquei muito orgulhosa em dividir a turma contigo, que sempre teve e sei que continua tendo, muita dedicação nas coisas que fazes. Guria, te admiro muito e sou muito feliz cada vez que se aproxima de mim, seja pessoalmente, por telefone ou internet. Gosto enormemente de ti e admiro muito tua história de vida. Ela não consegue ser tão bem relatada em palavras ditas ou escritas, mas sim no orgulho dos teus pais que vi na tua formatura, no carinho de tuas irmãs que vejo nos recados que te deixam no orkut, no amor que percebo na tua relação como teu companheiro e na admiração que todos que te conhecemos temos por ti, só em ver esses teus olhos enormes apaixonados pela vida que construiu e está construindo. Beijão bem grande e com muito carinho. Ana

itatiane disse...

Amiga Graci, o pouco que lhe conheço, percebo que tens um dom especial, por estar junto aos alunos surdos. Graci, que sua animação e vigor possa transmetir a outras pessoas o quanto vale estar numa missão como essa edudando e ensinando as pessoas. Amiga,conte sempre com minha amizade.Abraço Tati