quinta-feira, 4 de junho de 2009

ARIÈS. Philippe. Os Dois Sentimentos da Infância. IN.: ______. História Social da Criança e da Família. 2 ed. Rio de Janeiro: Guanabarra, 1981, p. 156 – 164.

Na obra desenvolvida por Áries é efetivado um retrato da condição de infância, se é que seja possível afirmar uma condição de infância na Sociedade Medieval. Nesta sociedade o sentimento de infância não existia, ou seja, não significava o mesmo que afeição pelas crianças, à consciência da particularidade infantil, a particularidade que distingue a criança do adulto, mesmo jovem. Essa situação permitia que a criança, assim que conseguisse viver sem a presença/cuidado constante da mãe ou da ama, ingressava na sociedade dos adultos e não se distinguia mais deles.
A indeterminação da idade era sentida em toda a atividade social: jogos, brincadeiras, profissões, armas. Em todas as representações coletivas as crianças aparecem, estão inscritas em todos os lugares, pois, assim que a criança superava o período de alta mortalidade ela se confundia com os adultos. No entanto, no século XIV, a arte, a iconografia e a religião procuraram admitir uma personalidade que existia nas crianças, bem como, o sentido poético e familiar que se atribuía à sua particularidade.
Com a evolução do Putto, do retrato da criança, entre outros, começou a produzir, pelo menos nas camadas superiores, a partir do século XVI e XVII um traje diferenciado que distinguia a criança dos adultos. Surge, portanto, um novo sentimento: a paparicação, ou seja, a criança, pela sua ingenuidade, gentileza e graça, se torna a fonte de distração e de relaxamento para o adulto. Esse sentimento surge no meio familiar tanto das classes mais abastadas, quanto das classes pobres.
Por outro lado, entre os moralistas e educadores do século XVII forma-se outro sentimento da infância: o início de um sentimento sério e autêntico da infância. É preciso conhecer melhor a criança para assim, poder corrigi-la , busca-se entrar na mentalidade das crianças para poder adaptar de forma mais eficaz seu nível aos métodos de educação. Esse sentimento provém de uma fonte exterior à família: dos eclesiásticos ou dos homens da lei, raros até o século XVI preocupados com a disciplina e a racionalidade dos costumes. O que esses moralistas percebiam nas crianças eram seres frágeis, criaturas de Deus que necessitavam ser preservadas e disciplinadas.
Já no século XVIII estabelece-se a esses dois sentimentos um novo elemento: a preocupação com a higiene e a saúde física, visto que, os moralistas estavam preocupados com o cuidado do corpo, no entanto, somente dos doentes. Assim, torna-se possível relacionar essas breves noções sobre os sentimentos da infância mediante os sentimentos que perpassam o atual contexto educacional, ou seja, o sentimento de pertencimento a um grupo social e cultural, determinado infância, um grupo que requer uma série de produtos e serviços. A Pedagogia cultural contemporânea requer uma atenção especifica à produção midiática da infância. Ao adentrarmos no espaço educacional nos deparamos com diversos sentidos e produções de infância que são veiculados pelos mais variados meios de comunicação e atravessam a produção dos sujeitos. Fico assim a me questionar o que estamos fazendo da infância? Não estamos reproduzindo contextos históricos em que o sujeito capaz de realizar determinadas ações já se torna membro de um grupo social adulto? De que infância estamos falando? Quais as marcas culturais que atravessam a infância contemporânea? Que condições permitem compreender a infância dentro de uma nova discursividade?
Sinto-me tocada, sinto-me atiçada a questionar de forma ilimitada a compreensão cultural que a infância vem adquirindo nos ditames da era pós-moderna, da era globalizadora, da era tecnológica...eis assim... uma reconfiguração, uma reversão nas formas de ver e compreender a infância...eis a possibilidade de suspeita e de tensionamento da produção de um sentido de infância...percebo ser necessário adentrar em outras leituras, para poder visualizar estas questões de forma, se possível, mais clara.

Um comentário:

Rosangela Cristina Santos disse...

NOSSA ADOREI SUA RESENHA ME AJUDOU MUITO